Laços

Laços (Holdudvar, Hungria, 1969), de Márta Mészáros. Com Mari Torocsik (Edit), Kati Kovács (Kati), Lajos Balázsovits (Istiván). 

O patriarcado e a masculinidade tóxica são o grande tema do filme de Márta Mészáros, cineasta hungara famosa por seu olhar feminista em um país dominado pelos homens do partido, assim como em grande parte dos países do leste europeu. Edit acaba de ficar viúva, seu promissor marido político morre repentinamente. Ela se vê bajulada pelos membros do partido, mas sabe da hipocrisia: seu marido não era bem visto neste meio.

Esses laços familiares tornam-se cada vez mais opressores, a frustração de Edit com seu casamento se repete na maternidade madura. A grande virada do filme acontece com a personagem Kati. Enquanto Edit segue tentando se libertar, o final da narrativa apresenta uma Kati que se rebela, se recusando a seguir o destino da sogra.  A sequência final é simbólica: a jovem caminha resoluta enquanto é assediada por um grupo de jovens. 

La chambre

La chambre (França, 1972), um dos filmes da fase inicial de Chantal Akerman, ainda na sua fase de curta-metragista, é uma experiência radical em plano sequência. Durante cerca de 11 minutos, a câmera gira em uma panorâmica de 360° por um quarto. O cenário é composto por móveis e objetos dispersos ao acaso e, a cada final do giro, Chantal Akerman está deitada na cama, em situações diferentes: está debaixo das cobertas, come uma fruta, lê um livro, está ligeiramente sentada. 

É, de certa forma, um tema recorrente na obra da diretora belga: a câmera lenta, planos longos em ambientes fechados; a cozinha em Saute ma ville, o quarto em La Chambre, o apartamento em Eu, tu, ele, ela os ambientes do Hotel Monterey. Experimentalismo, palavra determinante no cinema de Chantal. 

A garota e o eco

A garota e o eco (Lituânia, 1964), de Arūnas Žebriūnas e Regina Vosyliute.

É um prazer se deparar nas plataformas de streaming, no caso a Filmicca, com filmes restaurados de cinematografias que jazem esquecidas na história do cinema. O lituano A garota e o eco acompanha durante um dia o final das férias de verão da pequena Vika (Lina Braknyté) , vivendo um um ingênuo estado de liberdade. 

Ela ajuda o avô com o barco, nada nua no mar, escala as rochas, se diverte em uma cabine telefônica defeituosa. Vika conhece Romas (Valery Zubarev), um garoto local, e os dois exploram os arredores da praia, enquanto são atormentados por um grupo de garotos tóxicos. 

A garota e o eco foi filmado em locação, com poucos personagens, inspirado no estilo neorrealista de fazer cinema, com uma sensibilidade fotográfica e sonora de enlevar os sentidos. Ana conversando com as montanhas, só ela sabe exatamente a posição em que os ecos vão ressoar, representa este dia de verão que todos nós vivemos ou deveríamos ter vivido em algum momento de nossas infâncias. 

Toda uma noite

Toda uma noite (Toute une nuit, França, 1982), de Chantal Akerman. 

A câmera de Chantal Akerman acompanha vários casais durante uma noite quente do verão de Bruxelas. A narrativa fragmentada tem como tema o romance, encontros que acontecem em bares, restaurantes, quartos, conversas ao telefone. O silêncio e a atmosfera escura da noite ditam o tom do filme, um mosaico de encontros e conflitos que não se desenvolvem, não se resolvem, apenas anunciam aquilo que atormenta os casais: o sexo, o amor, a rejeição. 

Saute ma ville

Saute ma ville (França, 1971) é o primeiro curta-metragem de Chantal Akerman, realizado quando ela tinha 18 anos e estava cursando o primeiro período da faculdade de cinema em Bruxelas (Chantal abandonou o curso logo no primeiro período para seguir na carreira como autodidata).

A própria diretora interpreta uma jovem que chega em seu apartamento com as compras do dia e começa uma série de atividades rebeldes: abre e esvazia gavetas, espalha coisas pelo chão, joga água no piso, expulsa seu gato para a varanda. É um filme silencioso que termina com a jovem vedando todas as frestas de janelas e portas e ligando o gás de cozinha. Impactante e perturbador curta de estreia de Chantal Akerman.

Para sempre mulher

Para sempre mulher (Chibusa yo eien nare, Japão, 1955), de Kinuyo Tanaka.

A renomada atriz Kinuyo Tanaka  foi uma das primeiras diretoras que se tem notícia no cinema japonês que, assim como várias cinematografias importantes, foi amplamente dominado pelos diretores praticamente até a revolução dos anos 60 (nouvelle vague e demais renascenças). Com mais de duzentas atuações no cinema, ela dirigiu apenas seis filmes.

Para sempre  mulher (1955) é seu terceiro longa, baseado na história da poetisa Fumiko Kanaze (Yumeji Tsukioka) que foi vitimada pelo câncer de mama com apenas 32 anos de idade. O filme abre com o cotidiano familiar de Fumiko. Ela é casada com um homem frustrado, dependente de drogas, cuida dos dois filhos pequenos e frequenta um grupo de poetas à noite. O casamento acaba e Fumiko volta para a casa de sua mãe e se apaixona por um dos integrantes do grupo, casado com sua melhor amiga. 

Ela descobre o câncer já em estado avançado e o tratamento da doença coincide com a sua consagração como poeta, seus livros são publicados e admirados. A roteirista e diretora Kinuyo Tanaka preenche essa história real com ousados tons de libertação feminina, sexualidade e as questões da mortalidade. O cinema japonês do pós-guerra estava passo a passo se libertando das amarras da censura e a quase obrigatoriedade social de não tocar em assuntos tabus, como a eterna submissão da mulher aos desejos masculinos. Atenção para uma das cenas mais ousadas deste período: já em fase terminal, a jovem e bela Fumiko, pede ao jornalista por quem se apaixonou, “faça amor comigo.” Eles estão no hospital.

As pequenas margaridas

As pequenas margaridas (República Tcheca, 1966), de Vera Chytilová. Com Ivana Karbanová e Jitka Cerhová

O filme começa com plano fechado em duas jovens, cujos nomes verdadeiros não serão revelados ao longo da trama (ambas são Marie) tomando sol de biquínis. Elas conversam sobre trivialidades e, em determinado momento, dizem a frase que será o cerne da narrativa: “Se o mundo está tão mal, então seremos más também.”

A partir daí, as duas começam uma série de brincadeiras atrevidas, provocando as pessoas em restaurantes, bares e demais ambientes; brincadeira de mau gosto que envolvem uma comilança sem fim. Elas conquistam homens mais velhos dispostos a pagar a conta dos lugares, se empanturram e os dispensam. 

Claro, o filme teve diversos problemas com a censura comunista da antiga Tchecoslováquia. As protagonistas representam a anarquia pura de uma proposta de libertação feminina em um mundo dominado pelos autoritários homens do poder. 

“Um dos exemplares mais delicosamente piscodélicos e cheios de estilo dos anos 60, As pequenas margaridas, de Vera Chytilová, é uma farsa feminista amalucada e agressiva, que explode em diversas direções. Embora muitos cineastas americanos e europeus se orgulhassem, na época, de sua vocação para a subversão, é possível que o filme mais radical da década – tanto formal quanto ideologicamente – seja proveniente do Leste europeu, do caldeirão que fervia com a preparação para as reformas políticas de 1968: a Primavera de Praga, de tão curta duração.”

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

A lua nasceu

Kinuyo Tanaka trabalhou como atriz em filmes de Yasujiro Ozu. A lua nasceu é seu segundo filme como diretora, cujo roteiro é de Ozu. A trama gira em torno de uma família composta pelo pai viúvo, suas duas filhas, Ayako e Setsuko, e sua nora, Chizuru, também viúva. Ayako está de casamento marcado, matrimônio arranjado pela tia, mas a caçula Setsuko faz de tudo para que ela se enamore de um amigo de infância, que está de passagem pela cidade.

Como recorrente em filmes de Ozu, o tema central são as relações familiares no Japão do pós-guerra, com destaque para os jovens que começam a renegar as tradições do país. O pai assiste às tentativas de namoro das três jovens sob sua tutela com resignação e bom humor, entendendo que as mudanças são inevitáveis. As cenas ao luar são encantadoras, pontuadas por poemas clássicos que embalam os corações dos enamorados.

A lua nasceu (Japão, 1955), de Kinuyo Tanaka. Com Chishu Ryu (Mokichi Asai), Shoji Sano (Takasu), Hisako Yamane (Chizuru), Yoko Sushi (Ayako), Mie Kitahara (Setsuko). 

Anos dourados

Anos dourados (Golden eighties, França, 1986), de Chantal Akerman.

A experimentalista Chantal Akerman faz uma incursão pelo filme de gênero, sem abrir mão de suas ousadas críticas sociais e morais. A narrativa se passa em um shopping, com cenário estilizado, caricatural, cores exuberantes, assim com os personagens que desfilam figurinos, maquiagens e cabelos em estilos extravagantes, bem anos 80. 

A trama principal, misto de musical, comédia e drama, segue um triângulo amoroso formado pelos jovens Pascale e Mado. Ele, filho dos proprietários de uma loja de roupas, ela, cabeleireira no irreverente salão de Lili, que integra o triângulo. Os personagens secundários também narram suas desventuras amorosas do passado e do presente, sempre com o tom de desilusão e solidão da consagrada diretora belga, (cujo filme Jeanne Dielman, hoje lidera a lista de melhor de todos os tempo da Revista Sight & Sound). 

Eu, tu, ele, ela

Eu, tu, ele, ela (Je, tu, il, elle, França, 1974), de Chantal Akerman.

O primeiro longa-metragem de Chantal Akerman é puro cinema experimental. A própria diretora interpreta Julie que, na primeira parte do filme, está sozinha em seu apartamento. Ela escreve longas cartas, consome doses elevadas de açúcar, anda nua pelo apartamento sem se preocupar em ser vista pelos transeuntes. 

Na segunda parte, Julie vai para a estrada  e pega carona com um caminheiros. Os dois vagueiam pelas estradas e lanchonetes, ela praticamente silenciosa, ele cada vez mais se enveredando pelas confidências, principalmente sexuais. 

Na terceira parte, Julie chega ao apartamento de sua ex-namorada. A princípio, Julie é expulsa de casa pela namorada. Deposi, as duas se entregam a um ousado jogo erótico. 

A película é um estudo vigoroso sobre o vazio existencial, sobre o tédio. Chantal Akerman destila ousadia em diversas cenas: a nudez pura de Julie no apartamento, a revelação do motorista que sente desejos pela filha, a entrega sem pudor entre as namoradas no apartamento. O experimento de Chantal Akerman é feito para a entrega contemplativa e reflexiva do espectador.