El realismo socialista (Chile, 2023), de Raúl Ruiz e Valeria Sarmiento.
Entre 1972 e 1973, o cineasta chileno Raúl Ruiz trabalhava nas filmagens de O realismo socialista, mas foi forçado a abandonar o projeto após o golpe militar que derrubou o governo socialista no país. Cinquenta anos depois, Valeria Sarmiento, esposa de Raúl, lançou a obra, após um processo de restauração que durou cerca de sete anos.
A narrativa acompanha a luta ideológica e partidária de dois grupos ligados à esquerda: trabalhadores que querem ocupar e retomar a produção de uma fábrica e intelectuais que tentam controlar o movimento, buscando apoio para um amplo projeto de socialização no Chile. A discórdia evolui para embates físicos, em determinado momento o que parece ser um documentário se transforma em um filme com ações de violência e de tiroteio.
O realismo socialista em seu estilo doc/fic é um poderoso registro histórico de um dos momentos mais conturbados e violentos da história recente da América Latina, dominada por crueis regimes militares.
Elenco: Jaime Vadeli, Juan Carlos Moraga, Javier Maldonado, Marcial Edwards, Nemesio Antúnez.
Mimi – O metalúrgico (Mimi metallurgico, ferito nell’ onore, Itália, 1972), de Lina Wertmuller.
Perto do final do filme, Mimi (Giancarlo Giannini) tenta justificar os atos que cometeu forçado pela máfia siciliana. Ele grita para Fiorenna: “Eles são todos primos.”
Com esse filme, indicado ao prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes, Lina Wertmuller ganhou o reconhecimento internacional, demarcando seu estilo de críticas políticas e sociais, ancoradas em narrativas de um humor agressivo, feito para chocar a sociedade.
Mimi é um operário, recém-casado, que é ameaçado por integrantes da máfia ao se recusar a votar no candidato apoiado por eles. Perde o emprego e vai para Turim, onde conhece Fiorella (Mariangela Melato), uma ativista política. Os dois se apaixonam, passam a viver juntos, têm um filho, Mimi consegue emprego como metalúrgico e adere ao comunismo. No entanto, seu caminho se cruza novamente com os mafiosos e é obrigado a voltar para a Sicília, onde se defronta com sua esposa, que também tem um amante.
A virada da narrativa após a volta para casa tece uma contundente crítica, com desfecho trágico, sobre as tradições italianas que insistem em colocar a família sob a custódia do patriarcado, do machismo exacerbado e agressivo. O protagonista, mesmo com ideais políticos avançados, capaz até mesmo de enfrentar a máfia, sucumbe diante de si mesmo, incapaz de vencer sua vaidade masculina, colocando, como é típico, a honra do homem acima de tudo.
A italiana Lina Wertmuller, discípula de Fellini, foi a primeira mulher a ser indicada ao Oscar de Direção pelo filme Pasqualino Sete Belezas (1977). O cinema anárquico da diretora demarca Amor e anarquia, cujo extenso título original resume a obra: Filme de amor e anarquia, ou: esta manhã às 10, na Via dei Fiori, no famoso bordel.
Tunin (Giancarlo Giannini), um jovem ingênuo da região campestre, chega a esse bordel com uma ideia fixa: assassinar Benito Mussolini. A história é ambientada na Itália dos anos 30, o governo fascista caça e executa anarquistas, o que aconteceu com um grande amigo de Tunin. No bordel, seu contato com o grupo que planeja o assassinato é com a prostituta Salomê (Mariangela Melato). No entanto, Tunin se apaixona por Tripolina (Lina Polito), jovem prostituta que pode mudar o destino da trama.
O grande trunfo da película é a mistura de gêneros, uma das marcas do cinema dos anos 70. A curta odisseia de Tunin em Roma alterna momentos de drama, comédia, um belo e sensível romance, crítica política e social, cujo clímax é uma tragédia anunciada. O idílio amoroso de dois jovens ingênuos e sonhadores termina de forma brutal, nada surpreendente, afinal são os anos fascistas na Europa.
O diretor François Truffaut disse que fazia filmes sobre dois temas: crianças e histórias de amor. A história de Adèle H. (L’histoire d’Adèle H., França, 1975) é verídica, contando a juventude de Adèle (Isabelle Adjani), filha do escritor Victor Hugo. Em 1863, ela chega a Halifax, na Nova Escócia (EUA), em busca do jovem oficial britânico Albert Pinson (Bruce Robinson). Os dois viveram um amor intenso e enfrentaram objeções da família do escritor. No novo mundo, Adèle, rejeitada por Albert, passa a persegui-lo com uma obsessão perigosa, confrontando os limites entre amor, sanidade e loucura.
A interpretação de Isabelle Adjani, com apenas 19 anos, é o grande destaque do filme. Ela compõe uma personagem que se entrega de corpo e alma a uma paixão platônica, vivendo quase na miséria apenas para estar perto do tenente. Outro destaque é a fotografia de Nestor Almendros, principalmente na parte final do filme, quando a narrativa se passa em Barbados. As cores naturalistas evidenciam a miséria da região, contrastando com o exuberante figurino da aristocracia do império britânico. Atenção para Adèle H. caminhando com seu vestido, outrora deslumbrante, em farrapos pelas ruelas pobres da cidade.
O garoto selvagem (L’enfant sauvage, França, 1970), de François Truffaut.
A abertura do filme é assustadora. Um garoto (Jean-Pierre Cargol) que vive em um bosque no interior da França, em 1798, é perseguido por homens armados e por cães. O menino tenta se esconder em uma toca, os cães ladram na entrada, os homens ateiam fogo e jogam no interior para forçar o garoto selvagem a sair. Preso, ele passa por maus tratos, acorrentado, tratado como uma fera enjaulada.
O filme, baseado em relatos sociológicos do Doutor Jean Itard, conta uma história real. François Truffaut se interessou pelo projeto a ponto de interpretar o papel do Dr. Jean Itard, que adota o garoto (nomeado como Victor) e o leva para morar em sua casa de campo. A partir daí, a relação passa a ser de professor e aluno, pois a obsessão de Jean é ensinar Victor a falar e a se comportar em sociedade.
É mais um forma de opressão, pois após doze anos vivendo solitário na natureza, Victor tem dificuldades quase incontornáveis, além de se recusar a obedecer, com comportamentos às vezes violentos. O garoto selvagem é um estudo social e psicológico que aborda esse contraste violento que marcou os conflitos entre os homens civilizados, dominadores, e os ditos selvagens.
O quarto verde (La chambre verte, França, 1978), de François Truffaut.
A abertura concilia imagens da primeira guerra mundial com o rosto de Julien Davenne (François Truffaut) sobreposto. Corta para dez anos depois, Julien é um jornalista especializado em escrever obituários para o jornal local. Ele dedica sua vida a não deixar apagar a memória de sua esposa, falecida pouco depois da guerra, em um quarto verde, na casa onde mora. Com o tempo, o jornalista fica mais e mais obcecado por reverenciar os mortos: ele restaura uma velha capela no cemitério e constrói ali um grande altar aos mortos.
O quarto verde é o terceiro filme protagonizado pelo próprio cineasta. Os outros são O garoto selvagem (1970) e A noite americana (1973). O filme é inspirado em contos de Henry James, principalmente O altar dos mortos.
“A fotografia de Néstor Almendros é um espetáculo à parte. Utilizando-se da escuridão e de uma paleta de cores cinza-azul-preta que literalmente nos passa visualmente os sentimentos de Davenne, o diretor de fotografia e Truffaut conseguem enquadramentos antológicos, como a visão de Davenne, deformado, por trás de uma porta de vidro fosco e a fantástica sequência do que apenas posso classificar como um “casamento macabro” na capela/templo do protagonista.” – Ritter Fan (Plano Crítico)
Na idade da inocência (L’Argent de poche, França, 1976), de François Truffaut.
O cineasta François Truffaut dizia que fazia filmes sobre dois temas: o amor e as crianças. Truffaut tinha vários projetos de filmes sobre crianças, “Filmes com crianças nunca se esgotam, tenho inúmeros projetos com crianças, mas não quero fazê-los em sequência, porque não quero me especializar nisso. Então faço filmes de crianças de vez em quando, mas não em sequência.” Como o diretor faleceu jovem, aos 52 anos de idade, muitos desses projetos não foram realizados.
Sobre o filme deste post (sobre crianças) Truffaut disse: “Na idade da inocência, no começo era uma coletânea de crônicas. Escrevi duas ou três histórias, uma de 7 páginas, outra de 12, mas abandonei o formato e cheguei a um roteiro. Vi que podia fazer como em A noite americana, tudo podia se entrelaçar e formar um filme. Por isso preferi um filme a um livro.”
Essas histórias são contadas no filme quase que episodicamente. A narrativa acompanha um grupo de crianças que estudam na mesma escola. Além dos conflitos inerentes ao ambiente escolar, Truffaut segue os personagens também em seu cotidiano em casa, no bairro, alguns praticando pequenos delitos, outros fazendo biscates para ganhar um trocado (o título original pode ser traduzido como dinheiro de bolso).
O drama central, espécie de espinha dorsal da narrativa, é a amizade de dois garotos, Patrick e Julien. Patrick ajuda o pai deficiente em suas tarefas cotidianas, enquanto Julien mora em um barracão paupérrimo. Os dois veem o mundo com a inocência inerente à idade, mas com atitudes maduras na busca pela sobrevivência no dia-a-dia. Na idade da inocência é um filme delicado, sensível e doloroso, pois o cotidiano de um dos personagens é cruel – estamos falando, sim, de violência doméstica.
Elenco: Georges Desmouceaux, Philippe Goldman, Nicole Felix, François Truffaut.
Sangue selvagem ((Wise blood, EUA, 1979), de John Huston.
Hazel Motes (Brad Dourif) chega a sua cidade natal após ser dispensado do exército devido a ferimentos sofridos na Guerra do Vietnã. Ninguém sabe exatamente que ferimentos são esses, pois ele “tem vergonha de dizer onde foi atingido.” Hazel Motes, após diversos conflitos com os moradores da cidade, parte em peregrinação, adotando uma vida sem crenças, até que chega a uma cidade sulista e decide criar a Igreja Sem Cristo, pregando nas ruas, sem aceitar qualquer tipo de ajuda financeira.
Os irmãos roteiristas e produtores Benedict e Michael Fitzgerald adaptaram o primeiro romance de Flannery O’Connor, Wise Blood, publicado em 1953. A jornada espiritual de Hazel Motes é marcada por imolações, auto sacrifício e atitudes violentas contra os desafetos religiosos – atenção para a sequência de extrema violência na estrada.
Sangue selvagem é um raro filme de John Huston, um dos grandes do sistema de estúdio de Hollywood, feito de maneira independente, de baixo orçamento e contando com uma equipe pequena e colaborativa em todos os aspectos. Grande parte foi filmada nas ruas de Macon, na Geórgia, contando com atores não-profissionais, que muitas vezes nem sabiam que estavam sendo filmados – como na divertida cena do gorila. O xerife, que tem participação relevante na narrativa, é o próprio xerife da cidade, assim como a prostituta que acolhe Hazel. “Ela era uma prostituta, era prostituta na cidade.” , comenta o roteirista e produtor Benedict Fitzgerald, que analisa a escolha de John Huston para dirigir o filme.
“Queríamos fazer isso e éramos ambiciosos, queríamos fazer algo que sabíamos que era importante. Ver se encontrávamos alguém importante que se interessasse pela história e reconheceria seu valor. E tivemos sorte de termos pensado em John Huston. Estávamos considerando outros, mas eles ficariam tão impressionados pela natureza alegórica da história, ou pelo que consideravam grotescos ou pela alegoria em si, que não seria uma história contada do jeito que boas histórias são contadas, muito direta. John nunca fez nada além disso. Ele gostava de contar a história como ela era. Do jeito que é. E o fato dele achar que era uma comédia, que o exagero religioso ou o coração religioso era um ponto forte, foi um mal-entendido, nós nunca tentamos forçar o diretor. Ele foi em frente e fez. E lembro que no último dia ele colocou as mãos nos meus ombros e disse: acho que fui enganado.”
Elenco: Brad Dourif (Hazel Motes), John Huston (Grandfather), Dan Shor (Enoch Emory), Harry Dean Stanton (Asa Hawks), Amy Wright (Sabbath Lily), Mary Nell Santacroce (Landlady).
Cidade das ilusões (Fat city, EUA, 1972), de John Huston. Com Stacy Keach (Tully), Jeff Bridges (Ernie), Susan Tyrell (Oma), Candy Clark (Faye), Nicholas Colasanto (Ruben).
John Huston foi um dos diretores mais “aventureiros” da clássica Hollywood. Entre outras atividades, ele foi marinheiro e boxeador e as filmagens de alguns de seus filmes são repletas de histórias sobre esse jeito de viver perigosamente, principalmente, Uma aventura na África (1951).
Cidade das ilusões, realizado no melhor momento da Nova Hollywood, é um filme intimista, deprimente, corrosivo no tratamento do fracasso individual. O boxeador Tully abandonou os ringues no auge da carreira, entregando-se ao vício do álcool. Mora em um quarto simples e sobrevive em subempregos nas colheitas. Durante um treinamento na academia, Tully conhece Ernie, um jovem talentoso que, com o treinamento certo, pode ser um grande boxeador. Sob a tutela do treinador Ruben, Ernie dá os primeiros passos no ringue, enquanto Tully tenta se colocar em forma e voltar a competir, mas a ilusão e o fracasso rondam a caminhada dele novamente.
“No final, Tully não se encontra muito ‘livre’ para viver a vida de realizações masculinas, conformado com seu isolamento e fracasso, Huston sugere que não há nenhum caminho fácil para a ‘cidade das ilusões’ e de riqueza que é o sonho americano. Com as suas sequências de boxe autênticas, locações desoladas na Califórnia e uma atuação perfeita e sutil de um conjunto talentoso Cidade da ilusões oferece um retrato realista, porém poético, da obsessão demasiado humana de realizar sonhos irrealizáveis de auto-transformação e transcendência.”
1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.
15 de agosto (Le 15/8, Bélgica, 1973), de Chantal Akerman.
“Esta manhã, tentei ficar bem quieta. Tomei café da manhã na cozinha. Sai e caminhei por horas. Quando voltei, Chantal já havia se levantado. E fiquei na cozinha. Eu ficaria lá. Tive que pegar o mapa e tudo, os endereços das agências e tudo mais. Mas ela me disse para vir aqui e sentar nesta sala.” A narração em off que abre o filme é acompanhada do reflexo da imagem de Chris Myllykoski em um espelho. É agosto e nesse pequeno apartamento em Paris, a atriz passa o filme em um monólogo, refletindo sobre a vida cotidiana composta por pequenos gestos e atitudes.
Chantal Akerman prenuncia, de certa forma, em 15 de agosto a sua obra-prima Jeanne Dielman (1975), cuja narrativa também é centrada no cotidiano da personagem Jeanne, em seu apartamento. O estilo da diretora é demarcado em 15 de agosto pelos planos longos, fixos, a estética em preto e branco, a câmera ligeiramente à distância deixando espaço para momentos de silêncio e reflexão das personagens.