O banquete

A diretora Daniela Thomas buscou inspiração em fatos do início da década de 90 para reunir elenco de peso em torno da mesa de jantar. A primeira inspiração vem de memórias de jantares oferecidos em sua casa; a segunda, da carta escrita pelo jornalista Otávio Frias Filho ao presidente Collor.

O banquete começa com Nora inspecionando a mesa preparada para receber convidados do universo do teatro e da imprensa. Ela chora diante da mesa, evidenciando o tom de depressão que vai ditar a narrativa. Os convidados são Mauro, famoso diretor de teatro que escreveu uma carta ao presidente Collor e corre risco de ser preso; sua mulher Bia, atriz de sucesso; dois jornalistas culturais; o marido de Nora, advogado; a estranha mulher-gato e Claudinha, espécie de dama de companhia de Bia. O jovem chef Ted assiste a tudo com fascinação. 

A estrutura teatral da narrativa abre possibilidades para o elenco despejar diálogos sobre cultura, sexo, política e dramas pessoais. O ponto forte do filme é o embate final entre Nora e Bia, entre Drica Moraes e Mariana Lima, duas grandes personagens nas mãos de duas grandes atrizes.  

O banquete (Brasil, 2018), de Daniela Thomas. Com Drica Moraes (Nora), Mariana Lima (Bia Moraes), Caco Ciocler (Plínio), Rodrigo Bolzan (Mauro), Fabiana Gugli (Maria), Gustavo Machado (Lucy), Chay Suede (Ted), Bruna Linzmeyer (Catwoman), Georgette Fadel (Claudinha). 

A moça do calendário

Helena Ignez participou ativamente como atriz dos grupos que construíram o Cinema Novo e o Cinema Marginal. Foi casada com Glauber Rocha e Rogério Sganzerla. Em sua recente produção como diretora, Helena Ignez traz resquícios destes movimentos que formaram gerações de cineastas e cinéfilos. 

Inácio trabalha como mecânico, lê Freud, transita pela noite com o olhar sonhador de quem almeja mundos melhores. Em momentos de ócio na oficina na qual trabalha, tem devaneios com a moça do calendário que invade sua imaginação com erotismo e rebeldia, como se o chamasse a sair pelo mundo. 

A moça do calendário é Lara, militante de esquerda que luta pela reforma agrária e transita pelo MST. Em algum momento os dois podem se encontrar, enquanto isso, desfilam pelo olhar dos personagens a noite marginal paulistana, os segregados, os explorados pelo capitalismo. Belas imagens, texto contundente, crítica social, irreverência dos personagens – a autora Helena Ignez tem um quê de marginal em seu cinema. 

A moça do calendário (Brasil, 2017), de Helena Ignez. Com André Guerreiro Lopes (Inácio), Djin Sganzerla.

A livraria

Cidade litorânea da Inglaterra, final da década de 50. A recém viúva Florence Green chega à cidade, se encanta e acalenta sonho que luta para realizar: abrir uma livraria na velha casa que alugou. A empreitada encontra resistência em Violet Gamart, representante da conservadora sociedade local. 

A livraria é dos filmes que coloca cena a cena o amor pela literatura. Florence troca correspondências sobre livros com o recluso Edmund Brundish e passa a enviar para ele edições novas. A pequena Christine acompanha tudo com o olhar infantil, ajudando Florence na livraria. O final, triste mas esperançoso, revela como os livros podem modificar a vida das pessoas.  

A livraria (The bookshop, Inglaterra, 2018), de Isabel Coixet. Com Emily Mortmer (Florence Green), Bill Nighy (Edmund Brundish), Patricia Clarkson (Violet Gamart).

Para todos os garotos que amei

Vez por outra aparece uma comédia romântica com toque original. Lara Jean (Lana Condor) é filha de coreana com americano. A mãe faleceu jovem e deixa o viúvo com as três filhas. Como toda adolescente, Lara Jean tem paixões escondidas e escreve cartas (que nunca envia) para os pretendentes, entre eles o namorado de sua irmã. A irmã caçula acha as cartas escondidas em uma caixa e remete para cada um dos interessados. 

O encontro dos garotos e da garota após tomarem conhecimento das cartas rende situações engraçadas e provoca descobertas nos relacionamentos. O roteiro de Sofia Alvarez e a direção de Susan Johnson colocam em evidência o adolescente olhar feminino sobre a família, os colegas de escola, os namorados. Lana Condor carrega sua personagem com o deslumbramento e revolta no comportamento típicos da adolescência. Atenção para a hilária cena pós-créditos. 

Para todos os garotos que amei (To all the boys I’ve loved before, EUA, 2018), de Susan Johnson. Com Lana Condor, Noah Centineo, Jnel Parrish, Anna Cathcart. 

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Histórias que nosso cinema (não) contava

Um dos momentos de maior bilheteria do cinema brasileiro é a pornochanchada, gênero que marcou os anos 70 e início da década de 80. Fernanda Pessoa fez intensa pesquisa, assistindo e coletando material de filmes que iam além da ousadia sexual travestida de comédia.

A montagem do documentário é um primor. Sem narração ou depoimentos, sequências dos filmes se sucedem, separadas por temas: tortura perpetrada pela ditadura, consumismo nestes anos do milagre econômico, exploração do corpo feminino, violência contra a mulher, machismo, preconceito racial, homossexualismo, corrupção política. Muitos filmes da pornochanchada foram censurados pelo regime militar. Outros conseguiram inserir em meio a narrativas despretensiosas questões determinantes para a formação da sociedade brasileira. Fernanda Pessoa resgata a pornochanchada como gênero e como resistência política.  

Histórias que nosso cinema (não) contava (Brasil, 2017), de Fernanda Pessoa. 

Baronesa

A interseção entre documentário e ficção é tendência do cinema brasileiro. A diretora Juliana Antunes exercita o estilo em Baronesa, projeto que começou como um documentário quando ainda estudava Cinema e Audiovisual e enveredou para relatos ficcionais envolvendo personagens da periferia de Belo Horizonte. 

Andreia mora no bairro Juliana, mas está construindo uma casa no vizinho Baronesa (Juliana Antunes relata que a ideia do filme começou da observação do transporte público de Belo Horizonte, pois diversos bairros trazem nomes femininos). Leid, amiga de Andreia, cuida dos filhos enquanto espera o marido sair da cadeia. As filmagens aconteceram em locações, com moradoras do próprio bairro que improvisaram situações e diálogos. A câmera assume posição íntima das personagens, registrando imagens do cotidiano e diálogos coloquiais sobre criação dos filhos, sexo, questões sociais. Em determinada sequência, tiros invadem o som ambiente, equipe de filmagem e personagens correm para dentro da casa. Neste momento das filmagens aconteceu um tiroteio no bairro, conflito de duas gangues do tráfico rivais. Está no filme. É a força de Baronesa: o registro do cotidiano de mulheres da periferia, envolvidas pelos dramas e tragédias da realidade. 

Baronesa (Brasil, 2017), de Juliana Antunes. Com Andreia Pereira de Sousa, Leid Ferreira, Felipe Rangel Soares. 

O animal cordial

Inácio é, aparentemente, o tranquilo dono de um restaurante em São Paulo. Uma noite, perto da hora de fechar, três homens invadem o estabelecimento em tentativa de assalto. O que se segue é das mais impressionantes incursões do cinema brasileiro pelo gênero slasher.

A diretora estreante Gabriela Amaral Almeida reúne personagens dentro do restaurante que representam a tensão de classe, de gênero e outras facetas escondidas da população brasileira. A explosão gradual de Inácio (preste atenção na brilhante cena de Murilo Benício em frente ao espelho e na incrível cena de sexo no chão do restaurante) resulta em sangue para todos os lados. Ninguém é poupado. O animal cordial demonstra a força do cinema brasileiro nas mãos das diretoras.  

O animal cordial (Brasil, 2017), de Gabriela Amaral Almeida. Com Murilo Benicio, Luciana Paes, Irandhir Santos, Camila Morgado, Ernani Moraes. 

Mormaço

A narrativa abre com imagem de Ana deitada na pedra ao sol, em uma cachoeira. Corta para imagens de explosões de obras, preparando a cidade para as Olimpíadas do Rio de Janeiro 2016. Cortina de fumaça invade as ruas, Ana é envolta pela densa e sufocante onde de calor e sujeira. 

As cenas de abertura determinam o tom do filme: o calor do Rio associado às obras das Olimpíadas provocam ondas de revoltas. Ana é advogada e defende causa popular dos moradores da Vila Autódromo, despejados por conta da construção da Vila Olímpica. Ela mora em prédio que também está em vias de abandono pelos moradores, pois hotel de luxo será construído no local. Manchas começam a aparecer na pele da advogada sem diagnóstico preciso pelos médicos. 

Mormaço debate os problemas decorrentes do megaprojeto olímpico, colocando em pauta o agressivo plano de desocupação de moradores. A degradação da cidade e das pessoas é indicada através de metáforas visuais e narrativas. Atenção para a triste imagem dos desocupados arrastando seus pertences na calçada em frente ao Estádio Olímpico.  

Mormaço (Brasil, 2018), de Marina Meliande. Com Mariana Provenzzano (Ana), Paulo Gracindo (Pedro), Analú Prestes (Rosa), Sandra Maria Teixeira (Domingas).  

A casa de veraneio

A princípio, há um toque de humor nos pequenos e diversos conflitos que permeiam a narrativa do filme. Começa com Luca rompendo com Anna em um café de Paris, pouco antes da cineasta se reunir com grupo de investidores em busca de dinheiro para seu novo filme. Corta para paradisíaca mansão à beira do mar na Côte d’Azur onde amigos se reúnem para as férias de verão. 

Anna, proprietária da casa junto com a irmã Elena, tenta escrever o roteiro de seu filme, baseado na morte do irmão, enquanto sofre com a separação de Lucca. Os outros personagens entremeiam dramas, angústias, discutem sobre o passado. Todos são de classe média alta, estão na meia idade ou já na terceira idade. Do outro lado, os empregados da casa também desfilam seus dramas pessoais. O tom de humor se perde à medida que entram questões como crise entre casais, solidão, velhice, depressão, conflitos de classes, xenofobia, dilema de integrantes da esquerda francesa diante da ascensão da direita. Difícil esboçar sorrisos, mesmo quando os personagens se entregam às caricaturas de si mesmos, diante de tanta angústia. 

A casa da veraneio (Les estivants, França, 2018), de Valeria Bruni Tedeschi. Com Valeria Bruni Tedeschi (Anna), Pierre Arditi (Jean), Valeria Golino (Elena), Noémie Lvovsky (Nathalie), Yolande Moreau (Jacqueline), Laurent Stocker (Stanislas), Riccardo Scamarcio (Luca), Bruno Raffaelli (Bruno), Stefano Cassetti (Marcello), Brandon Lavieville (François), Celia (Oumy Bruni Garrel). 

Como nossos pais

Rosa (Maria Ribeiro) representa as angústias de grande parte das mulheres na contemporaneidade. Perto dos 40 anos, ela enfrenta problemas no casamento, frustrações no trabalho, convive com dilemas de relação com as filhas adolescentes, cuida dos pais idosos. A mãe sofre com doença terminal e faz revelação bombástica sobre a paternidade de Rosa, provocando reviravoltas nos caminhos da protagonista.

Como nossos pais é o retrato dos problemas que assolam famílias de classe média: conflitos entre gerações, desconfianças e infidelidades conjugais, frustrações profissionais, machismo, liberdades sexual, abandono dos pais. Rosa faz refletir sobre o papel da mulher em meio a tudo isto, afirmando o protagonismo feminino – Laís Bodanzky na direção, Maria Ribeiro como protagonista – na recente produção do cinema brasileiro. 

Como nossos pais (Brasil, 2017), de Laís Bodanzky. Com Maria Ribeiro, Clarisse Abujamra, Paulo Vilhena, Felipe Rocha, Jorge Mautner, Herson Capri.