A trama começa acompanhando a fuga de Traver, jovem negro, músico de jazz, pelas ruas de uma pequena cidade. Ele foi acusado de estupro por uma mulher branca. Traver rouba um bote e chega a uma ilha particular, reserva de caça, com apenas três habitantes: a adolescente Evelyn, seu avô (que morre logo no início) e Miller, protetor da ilha.
Luis Buñuel realiza um filme denso, com fortes cenas de racismo e e pedofilia para compor uma crítica severa à sociedade sulista americana. Evelyn desenvolve uma amizade ingênua por Traver, livre de preconceitos e julgamentos. Ao contrário, Miller e Traver partem para um relacionamento ostensivo, espécie de jogo de gato e rato, movido apenas pelas diferenças raciais, que pode terminar em tragédia.
A adolescente é uma coprodução entre EUA e México, ambientando em uma ilha da Carolina do Sul. A ousadia de Luis Buñuel é tratar destes temas, racismo e pedofilia, em 1960, em um estado sulista. Com apenas cinco personagens em cena, Buñuel escancara o horror: Traver já está condenado apenas por ser negro, enquanto Miller, um homem branco, está isento por sua cruel pedofilia.
A adolescente (The young woman, México/EUA, 1960), de Luís Buñuel. Com Key Meersman (Evelyn), Zachary Scott (Miler), Bernie Hamilton (Traver), Crahan Denton (Jackson), Claudio Brook (Rev. Fleetwood).
É ótimo encontrar filmes contemporâneos nos quais a estética noir ainda provoca forte influência. O grande trunfo de Please baby, please é o visual extravagante, pontuado por números musicais também estranhos e por fortes doses de violência e erotismo.
No início da trama, o casal formado por Suze e Arthur presencia uma gangue gótica assassinando um homem a pontapés no beco da cidade. Os dois passam a ser chantageados pela gangue, mas entre os riscos de violência e morte, desenvolvem um complexo fascínio: Suze fica cada vez mais obcecada pelo visual e estilo da gangue; Harry se entrega ao desejo por Teddy, um dos integrantes.
O roteiro não traz atrativos, muito menos surpresas. O destaque fica por conta da estética, da participação especial de Demi Moore e da interpretação caricata de Andrea Riseborough (indicada ao Oscar em 2022 por To Leslie).
Please baby, please (EUA, 2022), de Amanda Kramer. Com Andrea Riseborough (Suze), Harry Melling (Arthur), Demi Moore (Maureen), Karl Glusman (Teddy), Ryan Simpkins (Dickie), Cole Escola (Billy).
Quem ama não teme (Never fear, EUA, 1949), de Ida Lupino. O filme abre com a tradicional sequência do gênero musical: um casal de jovens dançarinos se apresenta em um nightclub da Califórnia. A sequência, belamente coreografada, destaca Carol Williams (Sally Forrest), de pernas exuberantes, gestos graciosos e um olhar apaixonado para seu par dançante, Guy Richards (Keefe Brasselle). O casal tem uma promissora carreira pela frente, Guy compondo e coreografando, Sally se afirmando como dançarina. Pouco depois, Carol passa mal, é internada e diagnosticada com poliomielite. É o fim de sua carreira precoce e, possivelmente, de seu caso de amor com Guy.
Ida Lupino dirigiu apenas seis filmes, uma das únicas mulheres a ter esse privilégio durante a chamada era do cinema clássico americano, entre os anos 30 e 60. A maioria de seus filmes trazem protagonistas femininas fortes, humanas, que em alguns momentos se entregam à fatalidade, mas se erguem e lutam. É o caso de Carol (espécie de biografia de Ida Lupino que também sofreu com a pólio na infância).
A narrativa está impregnada de cores reais no processo da doença da dançarina, retratando de forma vívida o drama dos cadeirantes e o sofrimento físico e emocional diário a que são submetidos nos hospitais de reabilitação. Um dos pontos fortes da trama está na amizade entre Carol e Len Randall (Hugh O’Brien). Os dois são cadeirantes e estão internados no mesmo hospital. Len tem um ar jovial, otimista, alegre, ajuda a todos, ao contrário de Sally, entregue à tristeza e à depressão. Entre os dois, Sally é a única com possibilidades de cura, mas é Len quem se esforça ao máximo nos exercícios, demonstrando uma esperança contagiante. O olhar e a direção sensível de Ida Lupino transformam essa luta cotidiana em gestos de amizade, amor e companheirismo.
Atom Egoyan exercita o neo noir, focando a narrativa na tradicional femme fatale. Chloe é uma jovem e irresistível garota de programa. Ela é contratada por Catherine, uma médica de sucesso de meia idade, para seduzir seu marido David, um professor de música. Catherine suspeita que Davi a trai durante suas viagens para congressos e concertos. Por meio de Chloe, a fidelidade de David será colocada à prova.
A enigmática trama envolve uma série de artimanhas perpetradas por Chlore, envolvendo o casal em uma rede de desconfianças. A virada do roteiro é previsível, mas coloca O preço da traição no patamar de uma ótima sessão de entretenimento, movida a thriller e erotismo em graus elevados.
O preço da traição (Chloe, EUA, 2009), de Atom Egoyan. Com Julianne Moore (Catherine), Amanda Seyfried (Chloe), Liam Neeson (David), Max Thieriot (Michael).
John Forbes vive uma tranquila vida de casado. É corretor de seguros de uma grande empresa, sua rotina se divide entre casa e trabalho, deixando transparecer o tédio que sente no dia-a-dia. Ele se vê envolvido em um caso de fraude à segurada, quando o responsável, Smiley, é preso. John Forbes precisa recuperar os bens que foram doados por Smiley à sua namorada, Mona Stevens.
Esse encontro encaminha a trama para a tradicional entrada em cena da femme fatale, marca registrada dos filmes noir. No entanto, a grande vítima da narrativa acaba sendo Mona. John Forbes se apaixona por ela, os dois começam um perigoso caso extraconjugal, pois MacDonald, um investigador particular que trabalha para a corretora, também está apaixonado por Mona. Ele usa de todos os meios para conquistá-la, incluindo chantagem, armando uma complexa armadilha para Forbes no final do filme.
O final, triste e doloroso, revela como homens cruéis, MacDonald, e os pretensamente íntegros, Forbes, podem destruir a vida das mulheres com quem se relacionam.
O caminho da tentação (Pitfall, EUA, 1948), de André De Toth. Com Dick Powell (John Forbes), Lizabeth Scott (Mona Stevens), Raymond Burr (MacDonald).
Nas primeiras sequências do filme, o roteirista Dix Steele está em um bar. Ele conhece uma jovem e a convida para sua casa. Os dois ficam juntos até o início da madrugada. Dix leva a jovem até o jardim, nesse momento Laurel Gray, sua vizinha do condomínio, passa por eles. Dix se despede da jovem e observa Laurel entrando em casa. Corta para a manhã seguinte. Dois policiais batem na porta do roteirista. A jovem com quem ele se encontrara na noite anterior foi assassinada na madrugada. Durante o depoimento na delegacia, Dix descobre que é o suspeito número 1 do crime.
No silêncio da noite é considerado a obra-prima do aclamado diretor Nicholas Ray. É um noir tenso e amargo, com interpretações primorosas de Gloria Grahame e Humphrey Bogart. É também um dos grandes filmes feitos sobre o próprio cinema, retratando a era de ouro de Hollywood, revelando como o sistema de estúdio forçava seus criativos a trabalhar com as regras impostas para que os filmes tivessem apelo comercial. Dix está trabalhando em uma adaptação literária, mas não pode escrever o filme que deseja artisticamente.
O grande destaque deste noir repleto de diálogos cortantes, prestem atenção nos depoimentos de Dix Steele e Laurel Gray na delegacia, é a complexidade psicológica que se instaura entre o casal de protagonistas.
“Dix Steele (Bogart), um roteirista de pavio-curto, é suspeito de um assassanto especialmente cruel, porém sua vizinha de porta, Laurel Gray (Grahame), pode lhe servir de álibi. Isso leva a dupla a um caso passional que é minado quando Laurel se apavora com as tendências violentas de Dix e começa a se perguntar se ele não teria cometido de fato o assassinato. Depois de anos interpretando sujeitos durões, porém românticos, aqui Bogart mergulha mais fundo na sua própria persona, revelando um viés neurótico que poderia ter feito Sam Spade ou Rick Blaine personagens instáveis e absolutamente assustadores nas sequências em que Dix explode, aplicando surras em quem merece e em quem não merece.”
O início do filme deixa claro para o espectador que Dix não é o assassino. No entanto, até mesmo esse espectador se vê em dúvida durante a narrativa. O crescente descontrole do personagem assusta a todos, principalmente a Laurel Gray. Os dois estão apaixonados, mas Dix se mostra cada vez mais violento, colocando na cabeça de Laurel, que depôs na delegacia sobre a sua inocência, a dúvida, o medo.
O filme tem uma sequência antológica, quando a mente criativa, talvez doentia, do Dix roteirista, acostumado a criar cenas de assassinato em seus filmes, se revela. Em frente a um dos policiais, seu amigo, e da mulher dele, Dix reencena como teria acontecido o assassinato dentro do carro, chegando a simular o estrangulamento no pescoço da esposa do policial. Puro terror psicológico.
No silêncio da noite (In a lonely place, EUA, 1950), de Nicholas Ray. Com Humphrey Bogart (Dix Steele), Gloria Grahame (Laurel Gray), Frank Lovejoy.
Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.
O filme abre com o casal Harry Graham e Eve em uma entrevista para adoção de uma criança. Estão na faixa dos quarenta anos, são profissionais de sucesso e a adoção é o sonho da esposa. Harry reluta, mostra-se apreensivo, reticente, Edmund Gwenn, o entrevistador remarca a entrevista e, perspicaz como um detetive, passa a investigar Harry. A descoberta não tarda a acontecer. Harry viaja muito a trabalho e, certo dia, ao abrir a porta de sua outra residência, se depara com Edmund. O som de uma criança recém nascida ressoa ao fundo e Phyllis entra em cena.
O título já revela ao espectador o tema da trama, portanto, não é surpresa a descoberta. A partir desse momento, O bígamo se transforma em um profundo estudo de personagens. Em flash back, Harry conta como conheceu Phyllis e a engravidou. Narrativa paralela revela o crescente distanciamento que vive com a esposa original, motivado, em grande parte, pelos anos de casamento, pela dedicação à vida profissional, a rotina e o tempo que transformam inúmeros casais em apenas amigos.
O trunfo do filme é a dissecação dolorosa das escolhas de Harry, sua paixão por Phyllis, seu respeito pelo longo casamento, um remorso lento e diário que corrói sua integridade. Ida Lupino não escolhe julgar Harry, nem suas esposas, coloca em pauta a complexidade da alma humana, os erros inerentes à condição de existir, de se entregar a momentos ternos como a troca de um olhar em um parque. Espero que, nem mesmo o espectador, se sinta capaz de julgar nem um dos personagens.
O bígamo (The bigamist, EUA, 1953), de Ida Lupino. Com Joan Fontaine (Eva Graham), Ida Lupino (Phyllis Martin), Edmond O’Brien (Harry Graham), Edmund Gwenn (Sr. Jordan).
Sally, uma jovem e ingênua garçonete, se apaixona pelo pianista que toca onde ela trabalha. O caso resulta em uma gravidez, mas o pianista muda de cidade, em busca do seu sonho de ser compositor. A jovem vai à sua procura, mas é renegada e abandonada. Desesperada, sua decisão é se internar em uma instituição que cuida de jovens solteiras grávidas e buscam pais adotivos para as crianças.
Mãe solteira é o primeiro filme dirigido pela consagrada Ida Lupino. Ela assumiu o filme durante as filmagens, substituindo Elmer Clifton, que sofreu um ataque cardíaco. Lupino tinha 31 anos e foi responsável pelo roteiro do filme, além de atuar como co-produtora.
Lupino impôs um olhar feminino ao drama de Sally, sofrendo com o abandono e as angústias quase insuportáveis da sua decisão de ceder o filho para adoção. Uma característica marcante de Mãe solteira, fruto da experiência da diretora como atriz no cinema clássico americano, é a narrativa visual, com momentos dramáticos transmitidos por planos longos e pela montagem com cortes secos e precisos.
Mãe solteira (Not wanted, EUA, 1949), de Ida Lupino e Elmer Clifton. Com Sally Forrest (Sally Kelton), Keefe Brasselle (Drew Baxter), Leo Penn (Steve Ryan).
Muito anos de O poderoso chefão (1972), Johnny Gunman traz a história de dois gângsteres que disputam o controle da máfia em Nova York. Vicious Allie e Johnny Gunman são amigos desde a infância. Ambos trabalham para o chefão Loy Caddy, que é preso por sonegação de impostos. Os dois amigos começam então uma disputa pelo controle exclusivo da máfia, ao invés de dividirem territórios.
A narrativa se passa ao longo de uma noite e traz os elementos característicos dos filmes noir: ambientação noturna nas ruas e em bares e apartamentos; diálogos rápidos e cortantes; a femme fatale que instiga seu amante ao confronto; o belíssimo contraste de sombras e luzes e, claro, a violência latente em pontos certeiros da trama. Um filme de baixo orçamento, bem ao estilo dos filmes B americanos que foram consagrados pelas críticos da Cahiers do Cinema e se transformaram em cults.
Johnny Gunman (EUA, 1957), de Art Ford. Com Martin E. Brooks (Johnny G.), Johnny Seven (Allie), Carrie Radisson (Mimi), Nick Rossi (Lou Caddy).
O premiado artista chinês Ai Weiwei compôs um painel impactante e doloroso sobre a situação de refugiados espalhados pelo mundo. Durante um ano, o diretor e sua equipe filmaram o cotidiano de 40 campos de refugiados, em 23 países, entre eles: Líbano, Quênia, Bangladesh, a fronteira entre o México e os Estados Unidos.
“Não é apenas um problema político, mas uma questão humanitária e moral”, afirmou o diretor. As imagens do documentário, com uma edição primorosa, retratam o lado humano dos refugiados: o cuidado que eles têm uns com os outros, a luta pela sobrevivência em situações muitas vezes precárias, o sofrimento pela indefinição das condições dos refugiados de apátridas.
As imagens são acompanhadas de informações de estarrecer, por exemplo, só no Iraque, quatros milhões de pessoas já abandonaram suas casas desde os anos 80; 56 mil refugiados sírios, iraquianos e iranianos cruzam a Grécia toda semana. O documentário é muito mais do que uma denúncia, é uma potente declaração humanitária que deveria ecoar fundo nas nações que fecham os olhos diante dessa escravidão moderna.
Human flow: não existe lar se não há para onde ir (Human flow, Alemanha/EUA, 2017), de Ai Weiwei.