O cenário é a decadente cidade de Kent, norte da Inglaterra. Bailey (Nikiya Adams), 12 anos, vive com o pai, Bug (Barry Keoghan), um excêntrico e psicodélico jovem que acredita que um sapo gosmento vai proporcionar o dinheiro que precisa, expelindo alucinógenos, para seu casamento. Completam a família de Bug seu filho mais velho Hunter (Jason Buda), sua namorada e a filhinha dela. Todos vivem em um prédio ocupado por diversos outros moradores também marginalizados, como uma mulher que cria cobras.
Apesar de criança, Bailey precisa tomar atitudes e decisões adultas: ela tenta cuidar de seus três irmãos mais novos que vivem com a mãe alcoólatra, que passa por um relacionamento abusivo. A narrativa assume um tom de fábula surreal quando ela conhece Bird (Franz Rogowski), jovem errante que está à procura de seus pais.
A diretora Andrea Arnold é considerada uma das cineastas mais vanguardistas do cinema inglês deste século. Seus três primeiros filmes de ficção conquistaram o Prêmio do Júri no Festival de Cannes: Red Road (2006), Fish Tank (2009) e American Honey (2016).
Bird é uma contundente crítica social, abordando temas como a marginalidade adolescente, gravidez precoce, violência doméstica. Tudo acontece aos olhos de Bailey, rebelde e ao mesmo tempo responsável o suficiente para tentar cuidar da família, incluindo seu pai disruptivo. A entrada em cena do jovem Bird, que passa os dias no alto de um prédio, é um sopro de liberdade lúdica, fabular, para a criança/adulta Bailey.
April (Geórgia/França, 2024), de Dea Kulumbegashvili.
O filme começa com a imagem difusa de uma criatura disforme que se move lentamente, a tela negra, a criatura diminuta ao fundo. Ouve-se o diálogo de duas crianças enquanto a criatura se afasta até desaparecer. Cota para a cena de uma forte chuva, é o alagado mês de abril em uma província da Geórgia.
A narrativa acompanha Nina (Ia Sukhitashvili,), obstetra que trabalha no único hospital da província. Após a morte do bebê durante um parto, Nina é acusada de negligência pelos pais da criança e passa a ser investigada pela direção do hospital. A investigação pode levar à revelação de uma prática criminosa: Nina faz abortos em mulheres abusadas sexualmente na região.
O segundo longa-metragem da diretora Dea Kulumbegashvili aborda o conflito entre questões legais, éticas e humanas. Nina é uma profissional reconhecida no mundo médico, mas transita com uma amargura quase suicida pelas ruas enlameadas da província, disposta a ajudar as mulheres que são torturadas pela sociedade misógina e patriarcal.
Um destaque: em tempos de supremacia digital, o filme foi filmado em 35mm, com a direção de fotografia de Arseni Khachaturian evidenciando o clima de amargura, tristeza e falta de esperança da narrativa. April conquistou o Prêmio Especial do Júri no 81º Festival Internacional de Cinema de Veneza.
A última ceia (La ultima cena, Cuba, 1976), de Tomás Gutiérrez Alea.
Semana Santa, final do século XVIII. O Conde (Nelson Villagra) visita seu engenho de açúcar e toma uma decisão inusitada: encenar a última ceia, colocando como os apóstolos, doze escravos da propriedade. O ritual começa com o Conde lavando e beijando os pés dos escravos e, a seguir, todos sentam-se à mesa para um fausto banquete.
Grande parte da narrativa se passa durante a ceia, marcada por longos discursos do Conde, histórias contadas pelos escravos e diálogos quase surrealistas. O fervor religioso do Conde revela sua face cruel e manipuladora: ele usa a religião para justificar a escravidão, o domínio racial dos brancos sobre os negros como uma escolha divina.
O mestre cubano Tomás Gutiérrez Alea expõe de forma cômica e trágica a desumana prática da escravidão, da tortura, mantida e incentivada pelas instituições dos países durante o colonialismo, incluindo a igreja. O terceiro ato, após a rebelião dos escravos, transforma a narrativa quase em um filme de terror, pois o Conde ordena: “quero a cabeça dos doze escravos que se sentaram à minha mesa.”
Elenco: Nelson Vilagra, Silvano Rey, Luís Alberto Garcia, José Antonio Rodríguez, Samuel Claxton, Mario Balmaseda, Idelfonso Tamayo, Julio Hernandez, Tito Junco, Andrés Cortina, Mirta Ibarra, Manuel Puig.
Lucia (Cuba, 1968), de Humberto Solá, um dos mais prestigiados filmes cubanos, é um retrato em episódios da vida de três mulheres com o mesmo nome, em três períodos históricos em Cuba.
1895. Lucia (Raquel Revuelta), uma aristocrata, se apaixona por Rafael (Eduardo Moure), um comerciante recém-chegado da Espanha. Os cubanos lutam pela independência do país. O episódio é marcado por espetaculares e violentas sequências de batalha e a paixão de Lucia por Rafael provoca a virada surpreendente do filme.
1930. Lucia (Eslinda Núñez) abandona sua família e vai morar com Aldo (Ramón Brito), um revolucionário que se envolve na luta armada para depor o ditador Gerardo Machado. O grande conflito do segundo capítulo são as crises entre o jovem casal. Lucia e Aldo se vêem entre viver o amor ou se entregar de forma trágica ao idealismo político.
1960. Logo após a revolução cubana, Lucia (Adela Legrá), trabalhadora analfabeta, se casa com Tomas (Adolfo Llauradó), motorista de caminhão que insiste em preservar a tradição patriarcal que herdou de sua família. Tomás força Lucia a abandonar o trabalho, a tranca em casa e não aceita que ela passe pelo processo de alfabetização.
A obra-prima de Humberto Solá aborda de forma contundente e crítica o papel da mulher na formação da nova sociedade cubana. A primorosa fotografia em preto e branco é um dos grandes destaques da película.
“De uma perspectiva contemporânea, o aspecto mais notável de Lucia é a sua capacidade de transitar dinamicamente entre vários modos de fazer cinema e apresentar quadros fantásticos de igual beleza e horror. Nesse aspecto, o segmento que abre o filme é provavelmente o mais comentado e o mais lembrado. Especificamente, as sequências de batalha – apresentando cavaleiros negros nus massacrando tropas do governo – têm a ferocidade visceral de Baladas à meia-noite (1965), de Orson Welles. Em sua mistura de diversos estilos de atuação, em sua encenação fatalista da história, bem como em seu movimento entre proximidades e distância, close extremo e plano aberto, pode-se dizer que é similar à obra igualmente operística de Sergio Leone. Em seu confronto de perspectivas e abordagem, Lucia explora as possibilidades do cinema de elevar a consciência dos espectadores, bem como o vínculo entre o cinema cubano pós-revolucionário e a nouvelle-vague da Europa e da América do Sul.”
Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.
Faca na cabeça (Messer im kopf, Alemanha, 1978), de Reinhard Hauff.
O médico geneticista Hoffmann (Bruno Ganz) está em seu laboratório sob uma luz difusa, bem ao estilo cinema noir. Ele disca um número no telefone, não é atendido, desliga. Ele olha para a janela, ouvimos sua voz interior: “Um americano no meu lugar sairia atirando da janela.”
Hoffman sai do prédio, caminha e depois corre pelas ruas de Berlim. Seu destino é um prédio onde um grupo de jovens, incluindo sua esposa, se reúne para promover manifestos contra a ordem política. O clima é tenso, os policiais e os jovens se enfrentam aos gritos e empurrões. Hoffman entra no prédio, um policial o segue. Ouve-se um tiro. Corta para o letreiro: FACA NA CABEÇA.
O diretor Reinhard Hauff declarou que o filme surgiu de uma história vivida pelo roteirista Peter Schneider. Schneider acompanhou um paciente na Itália que, após sofrer um acidente, passou por um longo processo de reabilitação, tentando recuperar a fala e a memória.
Após os créditos do filme, a narrativa acompanha Hoffman, baleado na cabeça pelo policial, no hospital, passando por diversas fases para recuperar os movimentos, a memória e a capacidade de se expressar. O contexto do filme é o tenso clima político do final dos anos 70 na Alemanha. Os policiais acusam Hoffman de ser terrorista, a história ganha a mídia, colocando um suposto e pacato geneticista como um perigo para a nação. A perda da memória impede Hoffman de se defender: ele não se lembra de nada da noite do atentado.
“Essa foi uma das abordagens. De alguém que sofreu um acidente ou o que quer que fosse, tentando começar do zero ao lado de seus amigos, tendo que reaprender e desenvolver tudo de novo com uma nova lógica e uma nova intensidade para reencontrar a verdade. Foram também os efeitos dos acontecimentos políticos que nos moveram. Mas a questão era: quem é essa pessoa, esse personagem principal do filme? Alguns dizem ser um terrorista, outros tiram vantagem dele para seus interesses políticos. E ele está sozinho tentando descobrir a verdade com essa energia e intensidade recém-descobertas.” – Reinhard Jauff
O clímax do final é o tenso confronto em busca da verdade. Hoffmann visita o policial autor do tiro e os dois começam um perigoso jogo verbal e de atitudes – simulando o acontecimento da noite. O inesperado final em aberto é provocativo em questões pessoais e políticas.
Elenco: Bruno Ganz, Angela Winkler, Hans Christian Blech, Heinz Hoenig, Hans Brenner, Udo Samel.
A caminho da loucura (Heller wahn, Alemanha, 1983), de Margarethe von Trotta.
Olga (Hanna Schygulla) é uma professora universitária de bem com a vida, vive sua liberdade, incluindo um relacionamento amoroso tranquilo, sem as amarras das convenções ou sociais. Ruth (Angela Winkler), ao contrário, vive em conflito interno, sofrendo com um marido possessivo. Ela tenta vencer a depressão se dedicando à pintura, sempre solitária. O relacionamento entre as duas começa quando, numa casa de campo, Olga impede Ruth de cometer suicídio.
A diretora e atriz Margarethe von Trotta, uma das expoentes do novo cinema alemão, trata com delicadeza e sensibilidade, bem ao estilo de seu olhar feminino e feminista, a intensa relação entre Olga e Ruth. É um filme sobre amizade, sobre mulheres que lutam para se libertar das convenções impostas, sobre a depressão e possibilidades de fuga.
As praias de Orouet (Du côté d’Orouet, França, 1971), de Jacques Rozier.
Caroline, Joelle e Kareen chegam a Orouet, sul da França, para passar as férias de verão. Elas ficam na casa da família de Kareen, um velho sobrado de frente para o mar. Pouco depois, Gilbert, colega de trabalho de Joelle, se junta ao grupo.
A narrativa é demarcada por inserts que anunciam os dias e as horas do mês de setembro. As jovens se aventuram diariamente pelas praias, fazendas da região, um cassino que mais parece uma vila de pescadores. A virada amorosa acontece quando elas conhecem Patrick, um velejador da região (atenção para a espetacular sequência de Patrick, Caroline e Joelle velejando, o vento fustigando o barco e as velas – um primor de filmagem em mar aberto).
O diretor Jacques Rozier experimentara esse tipo de narrativa, jovens que se deliciam ao mar e ao sol, no curta Blue Jeans (1958). Em As praias de Orouet, o diretor se consagra com um estilo de filmagens livres, improvisadas, quase como se a câmera também se deixasse levar pelos dias de verão. “Rozier começava a filmar as jovens na praia à tarde, continuava até ao anoitecer e terminava com algumas sequências à luz dos faróis dos carros. Um filme dele é um mosaico, uma invenção permanente, algo muito raro no cinema – Jean-François Stévenin, ator e realizador.
Nada de surpreendente acontece nas quase três horas de duração do filme. Cada sequência acompanha momentos do grupo marcados pela extroversão, pelas brincadeiras em casa e nas praias, pelas refeições, por momentos de melancolia. São as férias de verão em que tudo, ou nada, pode acontecer.
Elenco: Caroline Cartier (Caroline), Daniele Croisy (Joelle), Françoise Guégan (Kareen), Patrick Verde (Patrick), Bernard Menez (Gilbert).
Quando o tempo cair (Brasil 2006), de Selton Mello.
Em seu primeiro filme como diretor, um drama melancólico realizado em 16mm, Selton Mello fez uma aposta ousada: escalou como protagonista Jorge Loredo, mais conhecido pelo eterno Zé Bonitinho.
Loredo interpreta Ivan, um homem idoso, já aposentado, que mora em um pequeno apartamento junto com o filho e o neto. O filho está desempregado e sofre com a depressão, motivo que leva Ivan a procurar emprego para o sustento da família.
O curta-metragem aborda questões importantes e crueis da sociedade brasileira como o etarismo no mercado de trabalho e a depressão entre os jovens. Ivan enfrenta isso com resignação e otimismo, como quem sabe que não tem o que fazer diante dos problemas que o acometem, mas não perde a esperança e o olhar carinhoso para a vida, como na cena final, contemplando sua família na praça.
Morango e chocolate (Fresa y chocolate, Cuba, 1993), de Tomás Gutiérrez Alea, conquistou o Urso de Prata no Festival de Cinema de Berlim e é o único filme cubano indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A narrativa acompanha a relação que se cria entre David (Vladmir Cruz), estudante de ciências políticas, e Diego (Jorge Perugorría), artista homossexual. Enquanto David é militante comunista, defensor da revolução, Diego tem ressalvas sobre os princípios adotados pelo regime, principalmente em questões relacionadas à censura cultural e às perseguições que sofre por sua identidade sexual.
O diretor Tomás Gutiérrez Alea, cuja obra mais aclamada mundialmente é Memórias do desenvolvimento (1968), continua com seu olhar crítico sobre as consequências da revolução comunista em Cuba, principalmente, em termos econômicos, sociais e culturais.
Os debates entre David e Diego representam os olhares distintos sobre o regime. Ambos defendem a justiça social, porém discordam sobre os métodos adotados. O preconceito social também é tema relevante da trama.
A princípio, David renega Diego, “um maricón”, mas se deixa envolver cada vez mais pela sensibilidade, delicadeza e inteligência do jovem artista. O gesto final entre os dois é de enternecer até o mais empedernido dos espectadores.
Elenco: Jorge Perugorria (Diego), Vladimir Cruz (David), Mirta Ibarra (Nancy), Francisco Gattorno (Miguel). Marilyn Solaya (Vivian).
Vidas secas (Brasil, 1963), de Nelson Pereira dos Santos.
A morte da cachorra Baleia é uma das cenas mais tristes do cinema brasileiro. Ela olha uma última vez para os roedores à distância, sem disposição para persegui-los. Baleia se deita e fecha os olhos sonolenta.
Vidas secas foi filmado em Mirador do Negrão, município paupérrimo (ainda hoje), próximo a Palmeira dos Índios, onde viveu, e foi prefeito, Graciliano Ramos. Nelson Pereira dos Santos, pioneiro do cinema novo brasileiro com seu filme Rio 40 graus (1955), fez escolhas técnicas e estéticas para se aproximar ao máximo da narrativa do romance.
Os diálogos quase não existem, os personagens, principalmente os protagonistas Fabiano (Átila Iório) e Sinhá Vitória (Maria Ribeiro) trocam frases curtas e inacabadas, como se nada precisasse ser dito diante do sol arrasador. Não há trilha sonora, o som direto capta as sensações do sertão e, em alguns momentos, agride os sentidos do espectador, como o estridente barulho do ranger das rodas do carro de boi. A câmera na mão, tremida, é também um retirante, acompanhando Fabiano e sua família pelas paisagens desertas. A fotografia, feita com luz natural forte, sem filtros, aproveita a inclemência solar para ampliar a sensação de decrepitude dos cenários e dos retirantes.
“A fotografia e o som do filme são os exemplos mais claros desse movimento, na base do próprio deslocamento da equipe às locações em Alagoas. Vidas secas, nesse sentido, é um filme de sensações, marcado pelo som e pela luz do sertão, em seu modo de serem incorporados artisticamente na forma cinematográfica. A luz forte das imagens foi um grande achado original de Luiz Carlos Barreto, que concebeu a proposta de fotografia com o apoio de Nelson. É uma luz que machuca os olhos. A luz estourada ao fundo, como bem nota Nelson Pereira, faz com que a composição fotográfica tenha que ser feita nos rostos – é o que sobra como matéria na intensidade do branco do céu, que inunda a imagem e impregna a natureza.” – Fernão Pessoa Ramos.
O filme começa e termina de forma semelhante, adotando a clássica estrutura circular das narrativas. “Um atrás do outro, primeiro surgem a cachorra Baleia, então Sinhá Vitória, Fabiano e os dois meninos, seus filhos. Como o filme vai mostrar, eles vêm de um lugar indefinido para chegar em outro.” – André Miranda
No final, as duas crianças caminham lentamente, atrás vem Sinhá Vitória, por fim, Fabiano, todos carregando pesados pertences e mantimentos apoiados nas cabeças. Ouve-se o som forte de um berrante, a família contorna a cerca que divide a estrada, olha para a paisagem agreste e segue em frente. A câmera não os acompanha, filma os quatro lado a lado de costas (como na bela cena final de Tempos modernos – 1936, de Charles Chaplin) se afastando, se afastando… Falta alguém nesse belo e triste enquadramento.
Referências:
100 melhores filmes brasileiros. Paulo Henrique Silva (org.). Belo Horizonte: Letramento, 2016. Nova história do cinema brasileiro. Volume 2. Fernão Pessoa Ramos e Sheila Schvarzman (organização). São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2018